Hospital Digital

De WikiHosp

Conteúdo

O Conceito

O Hospital Digital é aquele que se organiza em volta das possibilidades criadas pelo processador eletrônico. Cada vez mais potentes e versáteis, os processadores podem ser instalados não só em computadores e dispositivos móveis, a exemplo de celulares e iPads, como, especialmente, em robots, equipamentos e dispositivos médico-hospitalares. O processador eletrônico, associado a novas soluções, novas interfaces, novos softwares e às tecnologias de comunicação, permitem que os equipamentos e dispositivos sejam dotados de inteligência artificial, conversem e interajam entre si.

A organização da atividade no mundo analógico se dá por meio de rotinas. Cada coisa deve ter o seu lugar e cada papel deve ter seu escaninho. Um hospital analógico depende de equipes que sabem como as rotinas funcioname e onde as coisas estão. O mundo digital gira em torno do mundo físico, dos objetos, das coisas e das referencias materiais.

A organização no mundo digital gira em volta da informação. A atividade é organizada por processos. O computador sabe onde está cada coisa e onde estão os recursos. O computador pode alocar os recursos físicos e humanos de modo a otimizar seu uso, assim como pode acompanhar a evolução das atividades e processos, monitorar procedimentos e rastrear os objetos e as coisas. As equipes de profissionais de saúde dos hospitais digitais apenas precisam saber usar as informações contidas no computador. Ficam liberadas, assim para concentrar seus esforços nas atividades fim.

As vantagens do uso da tecnologia digital são hoje de tal modo evidentes que estão estabelecendo novos padrões para as demandas e exigências em relação ao desempenho, conveniência, custo e qualidade. Na área hospitalar a diferença de produtividade e resolubilidade entre um hospital tradicional, analógico, e um hospital do modelo digital, que opera sob a lógica digital, é estimada, nos Estados Unidos, como sendo de duas a três vezes.

O Hospital Digital por Design

O Presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy, dizia que A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente certamente vão perder o futuro.

As tecnologias digitais vem mudando a história do homem e a medicina da era digital é muito diferente daquela que a humanidade conhecia até a chegada dos processadores eletrônicos e da inteligência artificial.

O Hospital, uma instituição que sempre se mostrou conservadora e se pautou pela cautela, finalmente vê a metamorfose digital romper a crisálida analógica que o mantinha cativo e encontra a liberdade para voar nas asas digitais que estão transformando o mundo.

Durante as ultimas décadas tudo mudou no planeta Terra. Em todas as frentes e atividades vivemos uma era de transição. O mundo dos espaços loteados dá lugar ao mundo da informação instantânea. No antigo paradigma sabíamos onde as coisas estavam porque elas tinham um lugar demarcado. Hoje sabemos onde as coisas estão porque a rastreabilidade permite que estejam em todos os lugares. E o hospital, que reúne um infinito número de coisas, recursos e eventos, está sendo profundamente tocado pela possibilidades que a era digital abre a sua frente. Como seria de esperar, o processo de mudança não deixa de ter sobressaltos e, embora a revolução digital já mostre a que veio e esteja claro que ela é irreversível, alguns recônditos do mundo hospitalar ainda resistem à mudança. A maioria das resistências, entretanto, parecem explicadas mais pela dificuldade de entender o que muda do que por simples apego ao passado. Como explica o médico e arquiteto hospitalar Domingos Fiorentini, no meio hospitalar ainda existe uma forte inércia para a cultura digital e o “raciocínio analógico“ continua prevalecente.

Nada é permanente, exceto a mudança

Desde Heráclito sabemos que nada é permanente, exceto a mudança, mas o hospital parecia imune a essa revolução que transforma o mundo.

Milênios atrás nossos antepassados achavam que a doença era um castigo dos deuses. Avançamos um tanto e descobrimos, aliviados, que as doenças não vem do Olimpo, mas tem causas naturais. Algum tempo depois aprendemos outra coisa muito útil e que está contida no princípio latino “Cessante causa, cessat effectus”, ou seja, eliminada a causa desaparecem os efeitos. Essa descoberta foi um ponto de inflexão na história da ciência médica. A partir daí, curar passou a ser um oficio que tem por fim atuar sobre as causas com o finalidade de eliminar os efeitos e, desta forma, repor a saúde no seu curso.

Mas, como já escrevia William Shakespeare, existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. É frustrante saber que, mesmo com todos os avanços, a medicina ainda não alcançou a vitória definitiva sobre todas doenças. Muito mais desalentador, porém, é verificar que muitas doenças não são curadas e muitas vidas deixam de ser salvas não por limitações da medicina mas por insuficiências materiais e questões ligadas a sua ministração e prática.

O hospital, instituição que surgiu no século XVI, tinha, em sua origem, pouco a oferecer além de conforto espiritual e algum conforto material. Hoje, cinco séculos passados, vivemos um contexto tecnológico inteiramente diferente e nele o hospital se converteu no principal centro provedor dos meios e recursos para o combate às doenças e suas causas.

Pela nobreza de sua missão e pela responsabilidade com que se coloca diante da coletividade, o hospital precisa oferecer sempre a medicina no melhor estado da arte. O hospital cuida da vida e, portanto, nada menos do que isto será eticamente defensável. O que a sociedade espera, em contrapartida, é que o hospital busque a excelência como uma obsessão.

Segundo Peter Drucker, o hospital é o mais complexo tipo de empreendimento que o homem se propõe a administrar. A complexidade decorre da imensa diversidade dos fatores e recursos que devem ser combinados e orquestrados para conduzir uma operação bem sucedida. Além disso, o hospital trata pessoas e não obstante as rotinas técnicas, protocolos e congêneres, cada paciente e cada atendimento é único. Enfim, para tornar tudo ainda mais complicado, é só lembrar que, parafraseando Henry Ford, cada doença vem com uma cabeça junto.

O Hospital e o modelo analógico

No Hospital tradicional a solução para organizar as atividades sempre seguiu o que hoje entendemos como modelo analógico. Prevalecia a crença de que organizar era fragmentar. Sua lógica acreditava na descentralização e na especialização dos espaços. Dada a limitação dos meios de comunicação e de mobilidade, parecia ser de bom senso aproximar os recursos do ponto de utilização. O professor Domingos Fiorentini, um dos criadores do IPH- Instituto de Pesquisas Hospitalares e um autêntico homem da renascença dedicado a pensar o hospital brasileiro, lembra que, quarenta anos atrás, dava aulas perguntando aos seus alunos: “O que colocar mais perto da unidade de internação: a cozinha ou a farmácia hospitalar?“ Na sequência explicava que devia ser a farmácia. Isso porque, enquanto a cozinha mandava alimentos quatro vezes por dia, a farmácia precisava mandar medicamentos o tempo inteiro. E o arquiteto completa explicando que, como fruto dessa matriz de pensamento, a típica organização hospitalar tendia a ser posto-cêntrica.

O modelo analógico cultua a descentralização como um fetiche

No mundo analógico a descentralização é um fetiche. Uma panacéia universal, tipo óleo de cobra, a ser usada para curar tudo e a ser aplicada sempre e mais. Mas mesmo reconhecendo que a descentralização tem suas virtudes e pode aliviar os problemas organizacionais de forma paliativa e circunstanciada, trata-se de um remédio dispendioso e com muitos efeitos colaterais. Exibe uma racionalidade aparente, mas, como tantas vezes acontece, as aparências enganam. Como explica Fiorentini, no hospital posto-cêntrico o posto de enfermagem acaba ficando com controle efetivo de toda a unidade de internação. Da mesma forma, pelos gargalos que esse tipo de organização cria, o centro cirúrgico não tem sossego e vive às turras com a farmácia satélite, o circulante no corredor, o depósito de arsenal e com tudo o mais.

Uma configuração analógica fica emaranhada nos escaninhos e cria um aparato burocrático insano, do tipo que se converte em uma armadilha para seus gestores . A prática mostra que é virtualmente impossível fazer funcionar com um mínimo de eficiência um comboio de unidades autônomas espalhadas pelo campus hospitalar. Cada uma ouve outro tambor e marcha em passo diferente. Como agravante, a descentralização, além de extremamente onerosa e disfuncional, tende a produzir mini-feudos, disputas de poder e constante atrito operacional.

A lógica analógica é a lógica da prancheta

Sem dúvida, a lógica analógica fazia sentido no tempo em que o único instrumento de mobilidade era a prancheta. Por muito tempo parecia preferível conviver com os problemas da descentralização do que enfrentar a paralisia de um leviatã centralizado. Na era digital, entretanto, o hospital que insiste em permanecer analógico é um anacronismo.

Na análise da transição para o modelo digital também se deve levar em conta a função social do Hospital. Como a instituição existe para atender a população e seu desempenho vem sofrendo críticas constantes, não dá para aceitar mais um modelo que é fonte crônica de problemas. No setor público, assim como em muitos hospitais privados, a crise sem fim dos Pronto Socorros exemplifica bem a caducidade do modelo analógico. Domingos Fiorentini, que estudou o fenômeno a partir de sua dupla experiência como médico e arquiteto, é contundente: a fragmentação exagerada das atividades do Pronto Socorro faz dele um “Espera Socorro”.

Fiorentini complementa explicando que, no Pronto Socorro do hospital tradicional, costumam ser delimitadas áreas para recepção, registro, triagem, consulta, sala de inalação, sala de medicação, sala de coleta, sala de curativo, sala de observação e outras mais. O paciente é deslocado para cada uma dessas atividades e, em cada uma, precisa enfrentar outra fila de espera. O efeito sanfona que se estabelece em cadeia acaba por produzir salas abarrotadas, aglomerações angustiantes e uma confusão que frequentemente desemboca no caos. O script é conhecido. Diante das cobranças da sociedade, e na tentativa de resolver o problema, a abordagem tradicional faz como os médicos medievais: aumenta a sangria. O que costuma piorar as coisas. Quando a demanda cresce e o caos se mostra insustentável, a solução simplista prescreve dividir e fatiar ainda mais. O efeito de mais compartimentação é mais salas de espera, mais filas e, simplesmente, mais caos. Para o arquiteto a compartimentação desenfreada pode ser apontada como a maior responsável pelas cenas desamparo que a televisão frequentemente mostra acontecer em muitos hospitais.

Soluções digitais gerindo a complexidade.

Pela natureza de sua atividade um hospital funciona com base em processos e em equipes multidisciplinares. Portanto dados e informações são a seiva vital da atividade hospitalar. Para coordenar as atividades de atendimento, dados e informações fluem em todas as direções, circulando tanto internamente como interagindo com o ambiente externo.

A tecnologia digital é um meio para organizar o mundo real criando um mundo virtual paralelo. O mundo virtual é mais fácil de entender e organizar. Permite simulações e análises. Facilita a gestão, a alocação dos recursos e o controle. A Torna a comunicação mais simples e instantânea. Em suma, ao estabelecer uma intima conexão com o mundo real, permite que este funcione melhor.

Como se pode ver, adotar a tecnologia digital não é colocar um computador para fazer o que antes era feito manualmente ou na máquina de escrever. O autêntico Hospital Digital, como esclarece Fiorentini, é um modelo completamente novo de hospital. É uma instituição redesenhada e reconfigurada para o modelo de operação digital, o que implica em incorporar mudanças conceituais na arquitetura, no projeto das instalações e na lógica operacional do hospital.

A conclusão é a de que o Hospital Digital, na medida que vê a operação pela ótica da virtualização dos espaços, mobilidade dos recursos materiais e humanos e sua alocação inteligente, monitorando as operações e gerenciando informações em tempo real, só será efetivamente digital se for desenhado para ser digital e contar com os sistemas correspondentes. O que significa dizer que o Hospital Digital só será Digital por Design.

Lógica Analógica – Hospital Tradicional Lógica Digital - Hospital Digital
1 - Modelo Organizativo O mundo material é analógico. Para organizar atividades no mundo físico é preciso colocar cada coisa em seu lugar e fazer uma coisa de cada vez. As rotinas constituem a alma da organização e a sequencia das atividades pressupõe espaços especializados que definem o layout. No mundo físico, alterar o layout para atender conveniências e circunstâncias é impensável. No modelo digital o mundo material passa a ser administrado por comandos que fluem do mundo virtual. No hospital digital o computador atua a partir de uma réplica do hospital real e no layout virtual o espaço físico ganha flexibilidade. Espaços multifunção se convertem em palcos onde os processos de atendimento se desdobram em atividades e procedimentos.
2 - Lógica de operação Como a organização da atividade no mundo analógico usa como referência o mundo físico, esse deve ser organizado e compartimentado. As rotinas engessam a organização. A lassidão crônica conduz à descentralização que, em teoria, permite aproximar a organização do ponto da atividade. mundo analógico usa como referência o mundo físico, esse deve ser organizado e compartimentado. As rotinas engessam a organização. A lassidão crônica conduz à descentralização que, em teoria, permite aproximar a organização do ponto da atividade.

No mundo digital a organização toma por base a informação. A atividade é organizada por processos com começo, meio e fim. A informação é processada em tempo real e flui constantemente. O computador sabe o que e como fazer, sabe onde estão as coisas e quais recursos materiais e humanos estão disponíveis.

3 - Espaço físico As rotinas requerem que as etapas avancem passo-a-passo. Cada etapa se dá em um espaço físico locado na planta hospitalar. Como cada etapa implica em filas de espera e como cabe ao paciente mover-se ao longo da cadeia de atendimento, as salas de espera se multiplicam e abarrotam. Os processos digitais são como os GPS. Permitem capturar a informação em qualquer lugar e mostram o melhor caminho. Facilitam programar, reprogramar, antecipar, reunir etapas e ganhar tempo. No hospital os procedimentos se combinam para atender os processos e a atividade pode se desenrolar em áreas multifuncionais.
4 - Logística O hospital tradicional depende de estoques e almoxarifados que operam com base em um software de suprimentos. O sistema é, em geral, muito dependente da entrada de dados e costuma ter dificuldade em lidar com datas de validade, FIFO e necessidades não programadas. A logística do mundo digital é parte integrante e inseparável da operação. Suas atividades respondem automaticamente às demandas do atendimento. O sistema atua acoplado à cadeia de suprimentos e utiliza as informações do sistema para o direcionamento das decisões.
Ferramentas pessoais